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Quando a revolução não é libertadora

Atualizado: 24 de ago. de 2021




Após quase dois anos, o mundo de agosto de 2021 ainda sofre com a pandemia da COVID19, os grandes laboratórios farmacêuticos não conseguem produzir imunizantes tempestivamente de forma a controlar a variantes e mutações do vírus Sars-CoV-2 e assim os países periféricos, que têm maior dificuldade de acesso a esses medicamentos, continuam sofrendo as crises decorrentes não só da pandemia e que não se refletem apenas na saúde da população, mas também em sua cidadania ou, como diria Hannah Arendt, no seu “direito de ter direitos”.


É nesse cenário que o governo do Afeganistão é tomado a galope pelas forças do Talibã, movimento fundamentalista e nacionalista islâmico. O talibã já havia governado o, então, Emirado Islâmico do Afeganistão, durante um curto período de tempo de 1996 a 2001. Mas com as intervenções militares dos EUA, em retaliação ao ataque terrorista de 11 de setembro 2001, o regime do Talibã foi tombado no mesmo ano e em 2004 foi fundada a República Islâmica do Afeganistão, que mesmo com a tomada de Cabul pelo Talibã em 15 de agosto de 2021, seu primeiro vice-presidente, Amrullah Saleh, pelo tweeter, se declarou como presidente interino e que iria continuar as operações militares contra o Talibã do Vale do Panjshir, sua base de operações. A retomada do Talibã só foi possível por que o ex-presidente norte americano, Donald Trump, assinou um tratado que retiraria as tropas norte americanas do Afeganistão até abril desse ano. O atual presidente, Joe Biden, manteve o acordo mas estendeu a retirada das tropas para o final do mês de julho e em menos de duas semanas, o Talibã tomou todas as províncias e a capital Cabul.


“Revolução não é piquenique, não é escrever um ensaio, nem pintar um quadro, nem fazer um bordado. É um ato de violência pelo qual uma classe derruba outra”, como já disse Mao Tsé-tung. O processo pelo qual passa o Afeganistão se coloca como um processo revolucionário por conceito, como definido por Florestan Fernandes, mas, a princípio, não representa uma ruptura das estruturas de poder, e para algumas mulheres, com o Talibã no poder, irá ocorrer um retrocesso de décadas. Durante o período do Talibã no poder, as mulheres eram trancafiadas em casa, proibidas de aceitarem a maioria dos empregos e até de ir à escola, não eram incomuns situações de violência física e até linchamentos nas ruas em plena luz do dia a mulheres que não seguissem estritamente à lei islâmica. Os vinte anos que se seguiram não foram muito melhores, contudo dois fatos devem ser citados, o número de mulheres (crianças) na escola aumentou em até 50% para o primário e 20% para o secundário e com o acesso à saúde básica liberado a expectativa de vida das mulheres passou de 57 para 66 anos. E, segundo relatos da população, apesar dos líderes talibãs dizerem que não são o mesmo grupo de vinte anos atrás e que irão respeitar os direitos das mulheres previstos na sharia, a lei islâmica, nas províncias mais afastadas da capital, extremistas do talibã já agrediram mulheres por usarem sandálias reveladoras demais.


Aqui vale lembrar que o golpe cívico-militar de 1964, que resultou na ditadura militar brasileira até março de 1985, para aqueles que a apoiaram e ainda apoiam, foi chamado de “revolução de 64”, que sobre certos aspectos se enquadra dentro de um conceito de revolução (ou contrarevolução, como disse Florestan Fernandes), e foi um período marcado pelo retrocesso do “direito de ter direitos”. A ditadura militar acaba em 15 de março de 1985 com o empossamento do vice-presidente, eleito por votação indireta, José Sarney (Tancredo Neves, presidente da chapa, veio a óbito às vésperas da cerimônia de posse). Após vários movimentos que se colocam como de uma esquerda revolucionária no período da ditadura, foi um movimento político de cunho popular (Diretas Já) que foi o estopim para o processo de redemocratização do governo brasileiro, conquistando o direito de votar diretamente em nosso representante máximo do executivo após a aprovação, pela câmara e pelo senado, de uma emenda constitucional.


Paulo Freire dizia que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor”, tomando a liberdade de parafrasear o nosso, para sempre, patrono da educação: “quando a revolução não é libertadora, o oprimido continua oprimido por outro opressor”.


Germano Godoy


Referências:


ARENDT, H. Origens do totalitarismo. Harcourt Brace Jovanovich, Inc. 1949


FERNANDES, F. O que é revolução. São Paulo, Expressão Popular, p. 130, 1981.






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